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A CIDADE SEM DEUS


E coabitou Caim com sua mulher; ela concebeu e deu à luz a Enoque. Caim edificou uma cidade e lhe chamou Enoque, o nome de seu filho. A Enoque nasceu-lhe Irade; Irade gerou a Meujael, Meujael, a Metusael, e Metusael, a Lameque. Lameque tomou para si duas esposas: o nome de uma era Ada, a outra se chamava Zilá. Ada deu à luz a Jabal; este foi o pai dos que habitam em tendas e possuem gado. O nome de seu irmão era Jubal; este foi o pai de todos os que tocam harpa e flauta. Zilá, por sua vez, deu à luz a Tubalcaim, artífice de todo instrumento cortante, de bronze e de ferro; a irmã de Tubalcaim foi Naamá. E disse Lameque às suas esposas: Ada e Zilá, ouvi-me; vós, mulheres de Lameque, escutai o que passo a dizer-vos: Matei um homem porque ele me feriu; e um rapaz porque me pisou. Sete vezes se tomará vingança de Caim, de Lameque, porém, setenta vezes sete. Tornou Adão a coabitar com sua mulher; e ela deu à luz um filho, a quem pôs o nome de Sete; porque, disse ela, Deus me concedeu outro descendente em lugar de Abel, que Caim matou. A Sete nasceu-lhe também um filho, ao qual pôs o nome de Enos; daí se começou a invocar o nome do Senhor. Gênesis 4:17-26


A primeira cidade a ser fundada no mundo foi Enoque, em homenagem ao primeiro filho de Caim. Após sair de casa, como um fugitivo, distante dos pais e distante de Deus, Caim inicia um projeto pessoal. A cidade fundada por ele é o protótipo de um mundo sem Deus, um mundo ateu ou, no mínimo, como diz Paulo, um mundo que segue o curso do Diabo, que ele estabeleceu um para os filhos da desobediência (Ef 2.2). Caim, filho da desobediência deu início ao que vemos hoje em nosso mundo, as cidades sem Deus. E o que caracteriza uma cidade distante do Senhor?


A cidade sem Deus exalta o homem

O nome desta cidade é o nome de um homem, Enoque. Não há nenhum indício nessa cidade do nome de Deus, ou da dependência de Deus. É o mesmo sentido da torre construída em Babel anos depois. Ele tinha o propósito de tornar célebres os nomes de seus construtores (Gn 11.4). Os filhos da Serpente seguem o seu mestre. É significativo notar que uma das propostas do anticristo, a antiga serpente, é de se opor a tudo o que se chama “Deus” (2 Ts 2.4). A nossa sociedade aprendeu bem esta lição.


E quem é Deus para os que, dentre os filhos da desobediência, que ainda creem em sua existência? Para eles Deus é um tirano. Um dos futuros habitantes da cidade de Enoque, Lameque, após matar dois homens, se entende como um amaldiçoado. Segundo ele a maldição de Caim lhe caberia setenta vezes sete (v.24). Ele faz menção à vingança de Caim, mas não cita, em momento algum, o nome de Deus. Esta sentença que Lameque expressou, a de ser mais amaldiçoado que Caim, não veio de Deus, foi algo de sua própria mente e de sua compreensão distorcida de Deus. O espírito do homem da cidade sem Deus não entende a Deus que, em Cristo, nos manda perdoar setenta vezes sete (Mt. 18.22).


Não devemos estranhar o mundo zombar do nome de Deus em suas ações e manifestações. Não é incomum o abandono da presença da Bíblia em repartições e até em escolas fundadas pela égide do cristianismo. Não devemos estranhar também o ateísmo, tanto o explícito, quanto o escondido nos corações de muitos “religiosos”. A ausência de fé na terra por ocasião da volta de Jesus, citado em Lucas 18. 8, não é uma prova do desprezo e abandono do nome de Deus?


A construção da cidade em homenagem a Enoque faz parte da astúcia da serpente em fazer com que o homem tente ser como Deus, igual a Deus, do tamanho de Deus (Gn 3.5). A cidade sem Deus é apenas uma expansão do projeto de Satanás de fazer com que o homem solte a mão de Deus e viva por sua própria conta e vontade; e, caso um dia alguém ainda se lembre de Deus, de fazer com que ele tenha em mente o Deus que amaldiçoou Caim e a Lameque, setenta vezes mais, e não o Deus amoroso do Jardim.


A cidade sem Deus não sente o seu pecado

A cidade sem Deus é um universo de pecado, mas não aos seus olhos. Lameque, tomado do mesmo espírito de Caim, após matar dois homens, não demonstra arrependimento, apenas remorso. Caim, ainda no jardim, não lamentou o seu pecado, conquanto fosse horrível aos olhos de Deus e impusesse tanta dor aos seus pais. Matar Abel, deixar seus pais praticamente órfãos de dois filhos, um morto e outro banido, foi de uma crueldade monstruosa. Mas não somos informados de qualquer arrependimento, de dor, de lamento. Lameque, por sua vez, matou dois homens, um deles apenas porque lhe pisara nos pés, e não entendeu isso como um pecado. A dor de Lameque o faz se visualizar como um maldito, não como um pecador.


Na cidade sem Deus não há pecado aos olhos de seus habitantes. Um homem sem Deus ao ficar doente, procura o médico; ao cometer um crime responde à justiça, e após isso, se foi curado ou sentenciado, se sente livre. A palavra pecado só é falada, em seu sentido original, na igreja. Na cidade sem Deus não há pecado, os desvios de conduta são tratados nos consultórios ou na justiça, jamais diante de Deus. A dor do homem da cidade sem Deus é tratada como uma doença ou como a quebra de uma lei humana, ou no máximo como uma maldição, mas jamais como pecado. É neste sentido que Pedro nos adverte que o povo da cidade sem Deus acha inaceitável que não concorremos com eles ao mesmo excesso de devassidão (1 Pe.4.4). Neste mundo caído tudo é permitido, até mesmo matar um homem porque lhe pisa no pé.


Como precisamos anunciar que haverá um julgamento final, que todos compareceremos perante o tribunal do Senhor Jesus e que cada um de nós dará conta de suas obras (Rm 14.12).


Paulo tem a revelação de que, à medida em que o fim do mundo se aproxima, mais acentuada será a propensão do homem para o pecado. O alvo da serpente não é que o homem apenas peque, mas que peque em proporções inimagináveis. E Paulo continua a nos dizer: Sabe, porém, isto, que nos últimos dias sobrevirão tempos penosos; pois os homens serão amantes de si mesmos, gananciosos, presunçosos, soberbos, blasfemos, desobedientes a seus pais, ingratos, ímpios, sem afeição natural, implacáveis, caluniadores, incontinentes, cruéis, inimigos do bem, traidores, atrevidos, orgulhosos, mais amigos dos deleites do que amigos de Deus, tendo aparência de piedade, mas negando-lhe o poder. Afasta- te também desses. (2 Tm 4.1-5).


Parece que este dia já chegou. Anunciamos o Evangelho redentor a uma geração que não se entende perdida; pregamos a verdade de Deus a um povo que prefere a sua própria verdade e razão; chamamos ao arrependimento pessoas que não são pecadoras aos seus próprios olhos. É interessante o fato de que mesmo na presença de Deus Caim não lhe suplica perdão. O fundador da cidade sem Deus, não se sente pecador diante do Senhor, desde o jardim. Que grande desafio é o nosso.


A cidade sem Deus se organiza sem Deus

Não passa despercebido ao escritor bíblico o fato de os filhos de Lameque terem se tornado homens renomados em sua geração. Jabal se tornar um próspero criador de gado; Jubal foi um fabuloso músico; enquanto Tubalcaim se tornou um grande inventor. Filhos da cidade sem Deus podem ser prósperos e, mesmo sem Deus, servirem ao Seu propósito soberano. Esta geração próspera não ora, não invoca o nome do Senhor, pois somos informados que apenas na família de Adão tal prática acontecia (v.26). A graça comum banhou a família do assassino Lameque, mas Deus não foi lembrado como o doador de todo o bem e toda a dádiva (Tg 1.17). Longe daquela geração e da nossa está o dar a Deus o crédito pelas bênçãos recebidas. Aquela geração, e a nossa, não ora, não agradece, não se importa com Deus. Ela se organiza e até prospera sem Deus.


O Salmista ficou perplexo com a prosperidade do mal. Veja como ele descreve a sua reação:

Pois eu invejava os arrogantes, ao ver a prosperidade dos perversos. Para eles não há preocupações, o seu corpo é sadio e nédio. Daí, a soberba que os cinge como um colar, e a violência que os envolve como manto. Os olhos saltam-lhes da gordura; do coração brotam-lhes fantasias. Motejam e falam maliciosamente; da opressão falam com altivez. Contra os céus desandam a boca, e a sua língua percorre a terra. Por isso, o seu povo se volta para eles e os tem por fonte de que bebe a largos sorvos. E diz: Como sabe Deus? Acaso, há conhecimento no Altíssimo? Eis que são estes os ímpios; e, sempre tranquilos, aumentam suas riquezas. Com efeito, inutilmente conservei puro o coração e lavei as mãos na inocência. Pois de contínuo sou afligido e cada manhã, castigado. Se eu pensara em falar tais palavras, já aí teria traído a geração de teus filhos. Em só refletir para compreender isso, achei mui pesada tarefa para mim; até que entrei no santuário de Deus e atinei com o fim deles. Tu certamente os pões em lugares escorregadios e os fazes cair na destruição. Como ficam de súbito assolados, totalmente aniquilados de terror! Como ao sonho, quando se acorda, assim, ó Senhor, ao despertares, desprezarás a imagem deles. (Salmos 73:3-20)


É importante também notar que Deus pacífica o coração do salmista mostrando o fim dos que não amam a Deus, ainda que durante sua vida sejam prósperos.


Na cidade sem Deus os homens produzem, cantam e criam, mas não atribuem a Deus mérito algum por suas conquistas. A graça comum alcança a todos. Deus faz raiar o sol sobre maus e bons e derrama chuva sobre justos e injustos (Mt. 5.45), mas há bênçãos muito maiores do que as materiais, e os filhos de Lameque, os filhos da cidade sem Deus, não perceberam.


Será que nós e nossa família estamos percebendo? Não corremos o risco de atribuir as coisas boas que nos acontecem a nós mesmos?


A cidade sem Deus tem casamentos distorcidos

Lameque tomou para si duas esposas (v.19). Aqui temos uma inovação muito perigosa. No Jardim Deus havia dito aos nossos pais: Por isso, deixa o homem pai e mãe e se une à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne (Gn 2.24). A ordem é clara: um homem e uma mulher. O que passar disso é dureza de coração. E ainda que as sociedades dos patriarcas e dos reis de Israel nos apresentem homens com mais de uma mulher, tal fato não faz desta prática o projeto original do Senhor. Jesus restaura o que foi e ainda é a vontade divina ao dizer: Não tendes lido que o Criador, desde o princípio, os fez homem e mulher e que disse: Por esta causa deixará o homem pai e mãe e se unirá a sua mulher, tornando-se os dois uma só carne. De modo que já não são mais dois, porém uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem (Mat. 19.4-6).


Quando Lameque tomou para si duas mulheres, ele retratou o protótipo da geração sem Deus que não tem zelo pelo casamento, que adultera, que fornica, que se divorcia com muita facilidade, que não tem zelo pelo que Deus estabeleceu no Jardim.

Paulo tem esta compreensão ao assegurar que nas igrejas cristãs o líder cristão deveria ser marido de uma só mulher (1 Tm 3.1; 12; Tt 1.6).


A cidade sem Deus precisa invocar ao Senhor

Esta preciosa perícope da Palavra de Deus não termina de uma forma desesperadora. Há esperança. Adão e Eva são propulsores novamente de uma nova geração. Com o nascimento de seu terceiro filho homem, Sete, e deste, Enos, Deus passa a ser invocado novamente. Que boas novas. Já em sua oração Eva, em suas últimas palavras registradas nas Escrituras, atribui a Deus o nascimento de seu filho. Se na cidade sem Deus o doador da vida não é lembrado, aqui, junto ao primeiro casal, os lastros do Jardim são lembrados. O salmista reverberaria este momento dizendo: Bendize, ó minha alma, ao Senhor, e tudo o que há em mim bendiga ao seu santo nome. Bendize, ó minha alma, ao Senhor, e não te esqueças de nem um só de seus benefícios (Sl 103.1 e 2).


Se nas cidades temos povo sem Deus, tem também o povo de Deus, o povo que lhe atribui louvores e que invoca o seu nome. E todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo (Rm 10.13).


Deus quer e pode salvar a cidade. Deus travou nas Escrituras uma batalha pelas cidades. Ele destruiu algumas por causa de seu pedado, como no caso de Sodoma e Gomorra; mas amou a outras, como a Jerusalém. Não é admirável que no final de tudo habitaremos para sempre com o Senhor em uma cidade, na Nova Jerusalém?


Os servos de Deus não devem se unir à cidade em seus costumes, em sua forma pecaminosa de agir, mas deve testemunhar a ela, vê-la com os olhos compassivos do Senhor, anunciar as boas novas do Evangelho aos seus habitantes.


Talvez a maior lição que este texto nos ensine é mostrar que, de uma forma maravilhosa, um casal que tanto desobedeceu no Jardim agora é a raiz de uma nova geração. Gente pecadora também pode ser bênção, se voltar-se para Deus de todo o coração e invocar o nome do Senhor.


Que Deus nos abençoe.

 

Pr. Luiz César N. Araújo

Presidente da ICEB

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