A IGREJA E A POLÍTICA

Se existe um assunto que tem dividido opiniões e atrapalhado a comunhão no Corpo de Cristo, sem sombra de dúvidas, este assunto é a política. Quando falamos em militância partidária os estragos são ainda maiores, basta dar uma observada naquilo que tem sido compartilhado nas redes sociais. Infelizmente, muitos demonstram maior engajamento por um determinado líder político do que pelas boas novas do Evangelho.


Entendo que, como certo político gostava de se expressar, “nunca antes na história deste país” se falou tanto em política como nos dias atuais. Isso tem grande valor pois, se antes o povo brasileiro não tinha prática com as questões eleitorais e precisou que o movimento “Diretas já” clamasse pela oportunidade de escolha dos governantes, agora temos um outro desafio que é o de saber “escolher bem”. Quem nunca ficou indeciso quando viu uma lista enorme de candidatos e não conseguiu, de primeira, escolher em quem votar?


Mas, como tudo deve ser, precisamos de equilíbrio e uma percepção bíblica para não cairmos no partidarismo, condenado nas Escrituras: “Nada façais por partidarismo” (Fl 2.3). A palavra “partidarismo” (eritheia na língua grega) tem como uma de suas definições a “propaganda eleitoral ou intriga por um ofício”, que tem origem exatamente na disputa de partidos políticos, ou seja, não podemos criar partidos em nosso meio, devemos considerar os nossos irmãos superiores a nós mesmos. Neste sentido, devemos compreender que preferências políticas não devem criar divisão na igreja do Senhor.


Sendo assim, qual seria a postura do cristão frente às eleições que teremos logo mais adiante? Entendo que, antes de tudo, devemos nos colocar em oração. É exatamente isso o que Paulo nos orienta: “Antes de tudo, pois, exorto que se use a prática de súplicas, orações, intercessões, ações de graças, em favor de todos os homens, em favor dos reis e de todos os que se acham investidos de autoridade, para que vivamos vida tranquila e mansa, com toda piedade e respeito” (1Tm 2.1-2, grifo meu). Penso que temos orado pouco neste sentido e a oração é uma prática que une a igreja, promovendo piedade e respeito. Piedade porque entendemos que somente Deus é quem pode abençoar a nossa nação, e respeito, pois amar o próximo é mandamento do Senhor.


Em seguida, devemos compreender que acima das autoridades existe um Deus que está no controle da história e que as instituiu: “Todo homem esteja sujeito às autoridades superiores; porque não há autoridade que não proceda de Deus; e as autoridades que existem foram por ele instituídas.” (Rm 13.1). Uma visão correta da soberania de Deus, deve nos motivar mais ainda à oração em favor daqueles que estão investidos desta autoridade para que Deus os use para cumprir Seus desígnios.


Outra observação é que não devemos esperar de um político a atitude de um profeta. Não existe um político “salvador da Pátria”. Em 1Sm 8.11-18 o profeta alertou o povo que um rei não agiria como profeta, pois seus interesses são políticos. Por isso não devemos, como igreja, ficar “fechados” com algum candidato. A igreja tem uma função profética no mundo e deve continuar sendo a voz de Deus, repreendendo, exortando e trazendo a lucidez, como Natã fez com Davi em 2Sm 12.1–15.


Sejamos, portanto, aquilo que a igreja deve ser: sal da terra e luz do mundo. Aproveitemos toda oportunidade para exercer a nossa cidadania terrena, porém, façamos isso com a consciência de que o nosso reino não é deste mundo.


Pr. Franck Neuwirth

Deão do SETECEB

@francknewirth