Lições da caverna

Meditação no Salmo 142. No salmo 142 Davi estava refugiado, fugindo do furioso Rei Saul em uma caverna, possivelmente a Caverna de Adulão (1 Sm 22). Ungido para ser rei de Israel agora ele está em um período muito difícil de sua vida, fugindo e se escondendo de Saul.

Às vezes nós mesmos nos encontramos assim, em uma caverna existencial. A caverna é aquele momento que Davi chama de tribulação (v.2), esmorecimento do espírito, desânimo, medo (v.3), de solidão (v.4), de impotência diante das pessoas e das circunstâncias (v.5,6), de um sentimento de prisão, de cadeias (v.7). Este tempo de pandemia pode ser comparado a uma grande caverna, não pode? Estamos vivendo um tempo difícil como sociedade, como igreja, como família, onde os sentimentos citados anteriormente se afloram com muita facilidade em cada um de nós.

Encontramos na caverna lições preciosas, pois a caverna tem seus ensinamentos. O melhor de nós foi formado em um tempo de sofrimento, adversidade e luta espiritual. A nossa melhor versão foi feita no quarto secreto, no recôndito. Esta pandemia pode nos fazer pessoas melhores.

Na caverna a oração deixa de ser somente “silenciosa” e “discreta”. Davi ergue a voz (v.1). Ele clama! O clamor é a oração de quem não tem outra saída diante da circunstância. Ele diz: “Atende ao meu clamor” (v.7). Paulo nos ensina a prática da súplica como antídoto contra a ansiedade (Fl 4.6). O salmista se humilha, se derrama (v.2) diante de Deus. Oramos melhor quando sofremos mais. O próprio Senhor Jesus orou com mais intensidade quando sofria no Getsêmani. O texto de Lucas 22:44 diz assim: E, estando em agonia, orava mais intensamente.

A caverna também nos ensina ver a Deus com mais confiança. Davi se sente muito sozinho (v.4). Em 1 Samuel 22 lemos que algumas pessoas se agregaram a ele posteriormente, mas quando o salmo é escrito ele está só. Ele não tem o amparo humano (v.4) e parece que é neste momento em que Deus mais age, quando o recurso humano é falho, quando o conforto humano não nos é suficiente. Davi ora e confia, pois, a oração é uma posse por antecipação (v.5). Davi está sozinho. É aqui na caverna que ele entende que o seu único bem, o seu bem verdadeiro, o seu quinhão na terra dos viventes é Deus (v.5). A comunhão mais deliciosa com Deus acontece quando nos abstraímos do conforto e socorro humano. O tempo do refúgio secreto fez bem a Davi e faz bem a nós também. Ele se sentiria muito confortável se ouvisse o Senhor Jesus convidando os cansados para irem à Ele: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para a vossa alma; porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve”. (Mt. 11:28-30).

Na caverna finalmente louvamos a Deus com mais gratidão. (V. 7). O salmista quer sair da caverna, quer se livrar do “cárcere”, mas ele não busca apenas o seu bem-estar. Ele quer que o bem que Deus fará a ele atraia os justos para Deus. Ele quer louvar a Deus com os justos e quer compartilhar os feitos do Senhor. No salmo 40 verso 3 ele diz que quando o Senhor o livrasse do lamaçal muitos veriam, temeriam e confiariam no Senhor, o que resultou em um hino de louvor ao Senhor. Paulo nos orienta a louvar ao Senhor mesmo em período de ansiedade, quando diz que no meio da súplica deveria haver ações de graças (Fl. 4.6). Talvez a lição mais preciosa deste salmo seja a de que devemos permitir que o Senhor intervenha em nossa vida, nos visite na caverna existencial para que os que estão ao nosso redor vejam, temam, confiem e louvem ao Senhor. Quando o Senhor nos faz bem os que estão conosco o louvam. Os que nos conhecem veem a ação de Deus em nós e aprendem a confiar mais no Senhor. No Salmo 126 o salmista fala das grandes coisas que o Senhor fez pelo seu povo, e isto era um testemunho para as nações (v.2). Nos momentos difíceis somos tentados a pecar contra Deus, a lastimar, reclamar, murmurar, mas não nos esqueçamos que nestes tempos podemos, além de suplicar, agradecer ao Senhor por tudo (1Ts 5:18) e testemunhar aos outros o seu cuidado.

Davi teve uma experiência maravilhosa com Deus naqueles dias. Deus o honrou tanto que dali ele saiu para reinar. O que ele aprendeu ali ninguém podia tirar dele, pois foram experiências maravilhosas! Que Deus nos visite hoje mesmo, no lugar onde estamos na condição em que nos encontramos, no meio da maior pandemia de nossa história. Que oremos com mais intensidade, que vejamos a Deus com mais confiança e louvemos com mais gratidão.

Neste tempo em que nos encontramos confinados, que seja uma oportunidade para nos apegarmos ainda mais ao Senhor. O Deus que nos guarda nos vales da sombra da morte é o mesmo cujas misericórdias se renovam a cada manhã. Que em tempos de sofrimento, dor, chateações, angústia e ansiedade, conheçamos mais ao Senhor, supliquemos com mais força, louvemos com mais intensidade e testemunhemos com mais zelo. Pr. Luiz César Presidente da ICEB