Ministério Feminino na ICEB – uma história linda e um pouquinho delicada...

Entrei no campo da história meio por acidente... e o problema é que gostei demais! Nesse breve texto, luto com a tarefa de resumir em pequeno espaço a grandiosidade do ministério feminino em nossa denominação. O objetivo não me coloca na situação de ser conclusivo, mas vamos apenas colocar mais um tijolinho na construção de uma reflexão necessária e abençoadora.


Se podemos falar em pré-história da ICEB, teremos que chegar a um maravilhoso avivamento missionário ocorrido especialmente na segunda metade do século XIX, tanto no antigo continente como na América do Norte. As chamadas “missões modernas” traziam a atenção do povo de Deus para a necessidade premente de levar a mensagem do Evangelho ao mundo todo, exatamente como ensinado pelo Senhor Jesus, após a ressurreição. De modo especial, o ambiente universitário, especialmente com rapazes e moças, foi sacudido com o despertamento missionário e, à semelhança de movimentos anteriores (como no caso dos “morávios”, por exemplo), transformou visão em ação, e fez chegar missionários nas terras sul-americanas.


A união das missões que se comprometeu prioritariamente com a América do Sul foi chamada de UESA (União Evangélica Sul-americana), atual Latin Link. Uma das agências missionárias tem atenção especial com o Brasil, e foi fundada por uma mulher – a missionária Sarah Kalley, que havia trabalhado no Brasil durante muitos anos, na companhia de seu esposo, Robert Kalley. Na verdade, esse casal é considerado por muitos como o primeiro casal missionário vindo ao Brasil (meados do século XIX) objetivamente para fazer missões e com o projeto de permanência prolongada em nossa terra. A primeira expedição missionária para a América do Sul se estabeleceu em Buenos Aires (mudando-se posteriormente para o Brasil), e incluía, além dos casais, uma moça solteira que fez história no Brasil, primeiramente no Maranhão, e depois no estado de São Paulo, sendo reconhecida como fundadora da igreja de Jacareí, no Vale do Paraíba. Bem perto dali, em São José dos Campos, foi também fundada uma das mais tradicionais igrejas de nossa denominação, com evidente liderança de Elizabeth Ranken, esposa de Brice Ranken, que na época supervisionava todo o trabalho missionário no Brasil, incluindo o interior.


Falando em interior do Brasil, especialmente no estado de Goiás, não se pode esquecer que muitas das esposas dos missionários ficavam durante meses seguidos “tomando conta” de igrejas enquanto seus maridos se envolviam em expedições missionárias. Mais adiante, as missionárias tiveram ação efetiva no ensino teológico, diretamente envolvidas, inclusive no preparo de homens, pastores e missionários. São exemplos: Betty Bacon, Ana Barnett, Catarina Bradford, Joyce Clayton, e inclusive Lídia, obreira de envolvimento com a Missão e que depois fundou o Seminário Betel Brasileiro. A UESA americana, que atuou no nordeste brasileiro também se serviu de missionárias bastante atuantes, como a pioneira Dorothy Kenechtel e Tutty Sobrinho, que lecionava no seminário e escreveu diversas lições para a revista de EBD.


Tenho que contar com a generosidade (e piedade) de muitas irmãs, porque o fato de honrar algumas torna inevitável a injustiça com as que não foram citadas, para destacar aqui algumas das diversas obreiras brasileiras que têm se destacado no ensino cristão e na área de literatura cristã, inclusive para adultos (até mesmo para pastores e na formação de pastores): as professoras Odila, Regina Aciolly, Lucília, Abigail, Débora e Elenice, que têm servido especialmente à Editora; Aélia, Loide e Libna, no Seminário; ou ainda algumas em campos missionários e congregações, como Iêda e Maria de Lourdes em Campo Grande, Maria José em Araputanga, Neciely em Luciara, Edegmar em Rio Maria... Mais recentemente, a Adriana em Comunidade dos Anjos e a Josiane em Arapapuzinho... Meu Deus, não falei das missionárias transculturais enviadas pela ICEB... das missionárias do trabalho infantil... as que atuaram entre indígenas... o trabalho social...


No concílio nacional de 2002, uma comissão (Profª. Betty Bacon, Profª Regina Aciolly, Pr. Jessé Bispo e eu) apresentou um estudo sobre o ministério feminino, incluindo estudo de diversos textos bíblicos que parecem incentivar a participação mais efetiva de mulheres, inclusive na liderança da igreja, e também de textos que parecem impedir ou limitar a ação das mulheres no ministério - alguns textos bíblicos são bastante contundentes nessa posição, e mereceram estudo especial dessa comissão: I Co 11:3-16, I Co 14:34-36, I Tm 2:11-15. O parecer acatado pelo Concílio Nacional (estou quase certo de que foi por unanimidade), foi de que

“não apenas se permite que a mulher exerça seus dons como trata-se de mandamentos que tornarão possível o cumprimento da missão da igreja. Aceitando a premissa de que esse deve ser um trabalho complementariedade, entende-se que a mulher atua sob liderança do homem, e isso não significa qualquer diferenciação posicional, mas apenas funcional. Desse modo, dada a natureza do trabalho de pastorado, na liderança principal do rebanho, a comissão continua insegura em recomendar a ordenação de mulheres para o exercício do pastorado. A comissão recomenda ainda um maior aproveitamento e valorização do ministério feminino em diversas áreas. O ministério masculino deve ser exercido exatamente em função de abrir espaço e alternativas para um ministério de ambos os sexos, de forma saudável e abrangente”.

Assim, o testemunho da história e a compreensão bíblica aceita oficialmente por nossa denominação rejeita toda a forma de discriminação posicional, incentiva o ministério de todos os crentes, e entende a diversidade de funções na igreja, não apenas em razão de gênero, mas também e especialmente em razão da diversidade de dons e habilidades no Corpo de Cristo.

Pr João Batista Cavalcante

ICE Central de Goiânia

@prjoaocavalcante