Pandemia e Ministério Sagrado, uma perspectiva histórica

O mundo vivencia um momento difícil, pois um vírus chamado Coronavírus surgiu para quebrar a arrogância que milita contra o Criador. Ao mesmo tempo, tal vírus revelou que a ciência não contém todas as respostas, que a economia não possui o controle sobre a vida, e que há apenas um Deus que controla todas as coisas como diz em sua Palavra: “No céu está o nosso Deus e tudo faz como lhe agrada” (Sl 115:3).


Devido a pandemia há muitas pessoas sofrendo. Enquanto em alguns lugares há um certo controle, em outros o número de infectados e mortes vem crescendo. São momentos assim de grande sofrimento e dúvidas que precisamos, como igreja, refletir sobre nossa missão nesse mundo perdido. Para isso, proponho uma breve reflexão na teologia histórica (período da Reforma) e tentarmos entender um pouco sobre esse momento.


1. Breve História

As pandemias fazem parte da história e o Senhor de tudo têm promovido coisas assim como sinais de sua vinda e punição pelo pecado (Ap 6). A questão é: como reagir diante de uma epidemia/pandemia? Ou como devemos realizar o ministério em momentos assim? Nessa questão, a história tem muito a nos ensinar.


Em meados de 1527, 200 anos após a Peste Negra ter matado cerca de 200 milhões de pessoas na Europa, ela ressurgiu na Alemanha. Essa epidemia trouxe medo na população. Por isso, Lutero escreveu uma carta pastoral a fim de orientar os cristãos sobre a doença. A carta “Se Alguém Deve Fugir de uma Praga Mortal” trazia conselhos como um manual prático de como lidar com o sofrimento em momentos de epidemia. Lutero compreendeu que nesses momentos, o cristão tem a responsabilidade de cumprir sua missão e demonstrar cuidado ao próximo e assim ser um canal de benção àquele que sofre.


Nesse tempo houve muitas manifestações religiosas, como intensas orações e penitencias. Alguns movimentos se flagelavam três vezes ao dia, outros mobilizavam para arrependimentos coletivos e até rituais com jejuns, orações e cânticos. Porém, houve um diferencial significativo que foi o entendimento ministerial dos reformadores sobre como exercer o ministério em tempo de epidemia/pandemia.


2. Igreja e Ministério

Lutero considerava o ministério essencial em momentos de epidemia. A ideia é que a pessoa chamada ao serviço sagrado tem a responsabilidade de não fugir em momentos de crise. Lutero diz na carta mencionada acima: “os que estão no ministério devem permanecer firmes diante do perigo da morte”. Os doentes e moribundos precisam de um bom pastor que os fortaleça, conforte e administre os sacramentos. No caso dos ofícios civis, incluindo prefeitos e juízes, esses devem permanecer e manter a ordem pública. Os médicos e policiais, devem continuar para a segurança e cuidado da sociedade. Até os pais e responsáveis têm deveres vocacionais em relação aos filhos.


Lutero não limitou o cuidado dos doentes aos profissionais de saúde. Ele desafia os cristãos a ver oportunidades de cuidar dos doentes como se estivessem cuidando do próprio Cristo (Mt 25: 41–46). Do amor a Deus emerge a prática de amar ao próximo.


Isso não quer dizer que o Ministro será descuidado. O Reformador defende a santidade da vida e a santidade dos necessitados. Ele quer dizer que o Ministro precisa ser prudente, se cuidar e se proteger ao mesmo tempo em que cuida e salva as vidas necessitadas. Ele defende ainda medidas de saúde pública, como quarentenas e a procura de atendimento médico quando disponível, pois tanto o cuidado com o corpo, bem como os remédios disponíveis são dádivas de Deus.


João Calvino, também tinha uma visão bem otimista em relação ao ministério em momentos de crise. Ele acreditava que o pastor é um “curador de almas”, promovendo ao povo por meio da Palavra a segurança de sua salvação e assim o crente triunfa confiantemente sobre o mal e a morte. Para cuidar e manter as pessoas seguras e firmes, o ministério da igreja é essencial.


A principal preocupação de Calvino diante da mortandade pela peste e perseguição era saber se as pessoas estavam salvas. Havia uma plena certeza do controle de Deus pela obra da providência, mas isso não o fez descuidado com sua obrigação ministerial. Ele considerava a igreja essencial nesse processo e uma igreja que se organiza para isso será um porto seguro aos fiéis, como uma mãe que cuida e amamenta seu filho. De forma nenhuma a peste, as guerras e perseguições podem afastar o pastor de sua função em socorrer o rebanho e assegurar a salvação das pessoas em Cristo Jesus. A pandemia exige que o Ministro se disponha e como um soldado em campanha esteja pronto para toda boa obra.


O método daquela época de pastorear priorizando a Palavra e buscando as pessoas foi tão marcante que pessoas vinham de longe buscar “consolo e alguma dose de coragem para a vida futura”. Se nossas palavras e ações aproximarem as pessoas em sofrimento do Senhor e trouxerem conforto e fortalecimento que honrem a Deus teremos cumprido nossa vocação nesse tempo de peregrinação.


Conclusão:

A história escrita pela vida e ministério de nossos irmãos do passado é uma boa ferramenta de apoio para os cristãos nessa pandemia. Assim como aconteceu em períodos difíceis com o povo de Deus, o culto público e o uso do templo até podem cessar por breve tempo, mas a vida como igreja e o ministério nunca. Em momentos de grandes aflições o ministério cristão se torna mais importante ainda e essencial para que Deus fale a humanidade e se manifeste em meio ao sofrimento.


As demandas ministeriais são tantas e tão complexas, que não haverá tempo para as questões secundárias e até para causas comuns. Deus levantou um povo para exercer um sacerdócio e para revelar que há um Deus em busca de adoradores e que deseja salvar mesmo no meio de uma pandemia. Que Deus use sua igreja para a glória Dele e o bem da humanidade.

Pr. Glauco Pereira