O TESTEMUNHO DE DEUS

Eu, irmãos, quando fui ter convosco, anunciando-vos o testemunho de Deus, não o fiz com ostentação de linguagem ou de sabedoria. Porque decidi nada saber entre vós, senão a Jesus Cristo e este crucificado. E foi em fraqueza, temor e grande tremor que eu estive entre vós. A minha palavra e a minha pregação não consistiram em linguagem persuasiva de sabedoria, mas em demonstração do Espírito e de poder, para que a vossa fé não se apoiasse em sabedoria humana, e sim no poder de Deus. 1 Coríntios 2:1-5


A ICEB completa hoje 120 anos de existência, não como denominação, mas como igreja. Foi no dia 21 de agosto que nasceu a nossa primeira igreja, a Paulistana. De lá para cá os tempos foram duros, mas gloriosos. Os nossos historiadores ainda hoje estão nos trazendo pérolas do nosso passado, de nossos pioneiros e de nossas primeiras igrejas.


Um culto, como tivemos no sábado, é uma pequena oportunidade de pensar neste passado glorioso, de louvarmos ao Senhor pela nossa história, e de pensarmos nos próximos anos pela frente, que parecem não serem muitos.


Certamente Paulo tem neste texto um pensamento semelhante. Ele começa esta perícope com a seguinte expressão: Eu, irmãos, quando fui ter convosco. (v.1). Ele relembra a sua segunda viagem missionária e o seu testemunho em Corinto. Ele permaneceu em Corinto um ano e seis meses (Atos 18.11). Ele fala de sua presença e pregação que deram um testemunho de Deus (v.1). Ele foi apresentar não a ele mesmo, não a sua denominação, mas Deus.


O Testemunho de Deus é o testemunho da salvação em Jesus (1.30 e 31). O testemunho de Deus é a mensagem central das Escrituras. E o que é o testemunho de Deus? É o testemunho a respeito do seu Filho. João nos esclarece esta questão:


Se admitimos o testemunho dos homens, o testemunho de Deus é maior; ora, este é o testemunho de Deus, que ele dá acerca do seu Filho. Aquele que crê no Filho de Deus tem, em si, o testemunho. Aquele que não dá crédito a Deus o faz mentiroso, porque não crê no testemunho que Deus dá acerca do seu Filho. E o testemunho é este: que Deus nos deu a vida eterna; e esta vida está no seu Filho. Aquele que tem o Filho tem a vida; aquele que não tem o Filho de Deus não tem a vida. 1 João 5:9-12


O Espírito Santo também dá testemunho da obra vicária do Senhor. E nós temos a incumbência de também fazê-lo:


Quando, porém, vier o Consolador, que eu vos enviarei da parte do Pai, o Espírito da verdade, que dele procede, esse dará testemunho de mim; e vós também testemunhareis, porque estais comigo desde o princípio. João 15:26,27


Assim o velho Apóstolo oferece, logo no início desta carta, à esta igreja, os princípios que nortearam a sua passagem, e o testemunho de Deus por aquelas terras. Ele aponta para 03 princípios que nenhum pastor, nenhuma igreja, nenhuma denominação, podem abrir mão em sua caminhada histórica/espiritual:


1- FOI UM TESTEMUNHO HUMILDE (V.1,3)


Paulo diz que não houve ostentação de linguagem nem de sabedoria (v.1), como faziam os filósofos e mestres da lei. A linguagem foi acessível, foi gentil, foi para a alma. Não houve nem mesmo a tentativa de persuadir com uma linguagem especial. O Evangelho é simples e deve ser manifestado de forma simples. O testemunho de Deus fala por si só. A presença de Jesus entre nós foi humilde, foi gentil, foi acessível; a mensagem sobre Jesus também precisa sê-lo.


A presença foi em fraqueza, temor e grande tremor (v.3). Estas palavras não foram colocadas aqui sem um propósito: A fraqueza pode estar falando de aspectos físicos, de doenças, dores, cansaço, açoites e prisões. Temor e tremor podem estar se referindo às suas lutas emocionais e espirituais e certamente de seu temor diante de Deus.


Paulo sabia que a força do homem nada é. A excelência é do conteúdo, não do vaso.


Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus e não de nós. Em tudo somos atribulados, porém não angustiados; perplexos, porém não desanimados; perseguidos, porém não desamparados; abatidos, porém não destruídos; levando sempre no corpo o morrer de Jesus, para que também a sua vida se manifeste em nosso corpo. Porque nós, que vivemos, somos sempre entregues à morte por causa de Jesus, para que também a vida de Jesus se manifeste em nossa carne mortal. De modo que, em nós, opera a morte, mas, em vós, a vida. 2 Coríntios 4:7-12


Paulo, no texto anterior já destacava esta fraqueza humana colocada a serviço do Senhor (1.26 a 29). Os coríntios não ficaram muito impressionados com a presença pessoal do Apóstolo Paulo (2 Co 10.10). Diziam: As cartas, com efeito, são graves e fortes; mas a presença pessoal dele é fraca, e a palavra desprezível. Ele se sentia nervoso e trêmulo diante dos habitantes desta cidade (v.5). Isto nos faz lembrar de Spurgeon, que sentia fraco quando se levantava para pregar. Dizia ele, eu temo, tremo, me levanto e prego.


É interessante como a história da igreja destaca a pouca força do homem e a necessidade de humildade na proclamação do Evangelho. Glass andava a cavalo, dormia ao relento, se sujeitou a desventuras várias para que a Palavra de Deus fosse proclamada. A nossa denominação nasceu de forma humilde.


O Evangelho, o testemunho de Deus, sendo apresentado desta forma humilde e singela, foi a nossa marca nos 120 anos que se passaram, e com certeza será a nossa marca nos anos que ainda temos pela frente para continuar o trabalho do Senhor.


2- FOI UM TESTEMUNHO CRISTOCÊNTRICO (V.2)


Paulo tomou uma decisão: a de apontar com veemência e paixão para Jesus e este crucificado (v.2). A cruz de Cristo adentrou na mente de Paulo e a tomou. Tudo poderia ser excluído de sua pregação, a sabedoria humana, a linguagem persuasiva, mas não a centralidade da cruz de Cristo.


Ele já tinha entendido que a mensagem da cruz seria considerada como uma loucura e escândalo para muitos (1.232). Mas não havia nada diferente desta mensagem para ser anunciado. Vejam, Paulo não está dizendo que somente pregará sobre Jesus. Ele pregará sobre “Jesus crucificado”.


O nome de Jesus é declarado no mundo inteiro e pelas várias religiões: No espiritismo Ele é uma luz; no islamismo Ele é um grande profeta, para as Testemunhas de Jeová, Ele é um anjo. Mas para nós, Ele é o que morreu na cruz para nos libertar da perdição eterna.


Jesus não deve ser anunciado tão somente, e para Paulo, de forma alguma, longe de sua obra vicária. O testemunho de Deus está no fato de que Jesus veio, morreu, ressuscitou e voltará para buscar o seu povo. O centro de tudo isso está a cruz. Tire a cruz e não sobrará nada aproveitável.


Que continuemos na mesma trilha. Que apontemos para a cruz, para o sacrifício vicário, para o sangue derramado, para o sacrifício que justifica, para a pacificação entre Deus e o homem selada na cruz. Gastemos todo o nosso esforço, toda nossa força, todo o nosso recurso, apontar para a cruz de Cristo e para chamar todo homem a conhecer a Deus no calvário.

Não nos esqueçamos que esta mensagem parece loucura, parece escandalosa, parece não ser adequada, como bem nos orientou Paulo. Mas não nos esqueçamos que a única forma de sermos fiéis ao testemunho de Deus é apontar para a sua obra vicária.


Que o sacrifício de Cristo esteja em nossa mensagem, em nossas músicas e em nossos pensamentos. Que esta seja a nossa bandeira, até Jesus voltar.


3- FOI UM TESTEMUNHO DEPENDENTE (V.4,5)


Finalmente o Apóstolo Paulo fala da sua dependência da atuação do Espírito Santo em seu ministério. A sua pregação foi firmada, não na sua força, mas no poder de Deus e de seu Espírito (vs 4 e 5). A fé não nasce por causa da sabedoria humana, mas pela atuação de Deus na vida dos que ministram e na abertura dos corações de quem ouve a pregação.


Sem Jesus não podemos fazer nada (Jo 15.5). Se o Espírito de Deus não abrir os corações, não haverá sucesso. Só aquele que apresenta a Deus sua total dependência diante de tamanho desafio, obterá resultados.


Glass não sabia pregar. Ele se entendia apenas como um colportor das Escrituras, até que foi desafiado a pregar pela primeira vez. Vejam o que ele diz neste dia:


“Por mais uma hora a casa continuou a ser vista. Quando nos aproximamos, enxerguei uma grande multidão de pessoas que a cercavam. Depois de ver que não me enganara disse ao meu guia: “O que faz ali tanta gente?”. “Ora”, respondeu ele em tom de surpresa, “não sabe? Vieram para ouvi-lo pregar”. Quase caí do cavalo com susto que levei. Tive ímpetos sinceros de virar o animal e voltar novamente, mas não o fiz. Sentir que o que se passava era a vontade de Deus e por isso nada disse até chegarmos à casa. Pedi então que me dessem a oportunidade de ficar em um quarto quieto por alguns momentos. Minha mente estava alvoraçada e eu terrivelmente nervoso. Ajoelhei-me afinal aos pés de Deus e disse-lhe que se era realmente Sua vontade que fizesse papel de bobo, eu estava pronto a obedecê-lo e entregava-me em Suas mãos. Então, em vez de deter-me, nervosamente tentei encontrar uma passagem da Bíblia, de leitura fácil, embora nunca tivesse lido em público, ou pudesse cantar ou orar em português.

Escolhi afinal uma passagem e entrei na grande sala, agora repleta de homens e mulheres que tinham vindo para ouvir minha pregação. Levantei-me para ler, hesitei, gaguejei e então consegui dizer umas poucas palavras de introdução. Estas palavras foram se tornando longas e, com surpresa, percebi que as pessoas pareciam escutá-las com interesse. Continuei a falar, até que, para minha admiração, vi que estivera pregando durante uma hora inteira. Daria muito para poder ter uma ideia do assunto do meu primeiro sermão, mas o que apenas posso lembrar é que, ao terminar, grande sensação de espanto, alívio e satisfação própria, em um conjunto feliz, enchia o meu ser. O orgulho proveniente do meu sucesso dissipou-se rapidamente, quando o fazendeiro chegou junto a mim. Apertou minha mão efusivamente, agradeceu-me, mas acrescentou: “O Senhor não poderá partir amanhã, porque todos os que vieram querem ouvi-lo outra vez à noite”.

Isso esfriou minha alegria em um momento, mas o amanhã veio e passou e o Senhor não me desamparou, nem o fez desde então. Além disso, vendi todos os meus livros e recebi o pagamento de muitos outros que devia enviar-lhes do Rio, pelo correio. Tempo depois, um missionário visitou aquele lugar, encontrando uma comunidade madura para a colheita, alguns já convertidos. Existe ali atualmente um trabalho evangélico, muito próspero, que talvez não tivesse existido se a minha confiança em Deus não me levasse para frente, quando o dever me indicava um caminho difícil de ser trilhado”. Aventuras com a Bíblia no Brasil, página 22.


Deus gosta da dependência, das orações de súplica, dos pedidos de socorro. A humildade tira de nós qualquer vaidade na obra do Senhor, mas a dependência nos enche de esperança de que Deus fará o que lhe apraz e na força do Seu Espírito.


Esta revelação nos faz descansar no poder de Deus e não em nossas forças. A salvação do homem não se apoia na sabedoria humana, mas no poder de Deus (v.5).


Havemos de continuar a fazer a obra do Senhor, mas a faremos na dependência do Senhor. A salvação é um ato soberano de Deus. A parte humana é lançar a semente salvífica, na expectativa de que Deus abra os corações. Foi assim quando Paulo pregou em Filipos. O Senhor abriu o coração de Lídia. Diz assim o texto: O Senhor lhe abriu o coração para atender às coisas que Paulo dizia (At 16.14).

Jesus nos diz em João 15.16: Não fostes vós que me escolhestes a mim, pelo contrário, em vos escolhi, e vos designei para que vades e deis frutos, e o vosso fruto permaneça.


Que bom que olhamos para traz com orgulho, com a convicção plena que fazemos parte de uma obra maravilhosa, de um projeto divino para a nossa denominação. Que hoje, diante de nossa linda história, e principalmente diante dos desafios da Palavra do Senhor, expostos aqui, possamos continuar fazendo o trabalho do Senhor, apresentando o testemunho de Deus. Que o façamos de maneira humilde, com uma mensagem que aponta o Salvador crucificado, e que seja na total dependência do Espírito Santo.


Este texto nos dá o apoio de toda a Trindade. Temos o testemunho de Deus Pai, o sacrifício do Deus Filho, e a força do Deus Espírito Santo. Estamos bem acompanhados para continuarmos a tarefa.


Vivemos no meio de uma geração que não quer mais ouvir do nome de Jesus; temos igrejas em que Satanás conseguiu tirar Jesus de sua pregação e especialmente de suas músicas. Mas o nosso desafio é o mesmo do Apóstolo Paulo e dos que fizeram a nossa história. Que Deus nos fortaleça para esta tão sublime tarefa.

Pr. Luiz César

Presidente da ICEB